
Quando Charles Darwin publicou A Origem das Espécies, em 1859, grande foi a polêmica em torno da obra e das idéias nela expressas. Foi mostrado de uma vez por todas que a Evolução é fato, e a Teoria da Evolução por Seleção Natural foi o meio encontrado para explicá-la.
Embora fosse muito cauteloso quanto ao impacto que suas ideias poderiam causar nos meios religiosos ortodoxos, Darwin não conseguiu evitar um abalo de enormes proporções nos pilares do literalismo bíblico. Os fanáticos se voltaram contra o fato científico então apresentado, exaltando, em contrapartida, uma suposta teleologia natural imposta sobre os seres vivos terrestres por um deus-arquiteto, que já era velho argumento defensor da interferência divina. Este argumento teleológico de William Paley, contudo, fora o justamente refutado por Darwin ao demonstrar que nem sempre o que nos parece complexo resultado de projeto inteligente o é.
De lá para cá a Evolução tem sido cada vez mais corroborada como fato por evidências e provas advindas principalmente da Genética. Já é fato tão certo quanto o Heliocentrismo, e a Teoria da Evolução por Seleção Natural continua invicta como o melhor meio de explicar o fato que é a Evolução. Igualmente se mantêm os inimigos desta área da Biologia, que a consideram uma farsa herética que atenta contra a verdade divina da Criação. O nome é bastante sugestivo: Criacionistas. Em busca de provar total ou parcialmente a criação divina, esses propagadores da ignorância – divididos em Criacionistas da Terra Jovem, Criacionistas da Terra Antiga e Criacionistas do Design Inteligente* – desejam um debate com os evolucionistas em pé de igualdade, como se apresentassem também um fato científico, em contrariedade àquele que é consenso acadêmico. Isto parte de uma falsa equivalência.
O debate “Evolucionismo versus Criacionismo” pode ser um hobby para os cientistas sérios e uma guerra santa para os crédulos religiosos, mas se tem uma coisa que ele nunca foi é um debate científico, no sentido de propor um consenso entre duas teorias que tratem de coisas igualmente sustentadas em evidências demonstráveis ou mesmo suportáveis pela lógica. Isto porque Evolução é fato científico, enquanto Criação Divina é uma balela religiosa antropocêntrica e narcisista que elege o ser humano como a maior maravilha sobre a Terra.
Mas nem por isso o Criacionismo deixa de ser popular – como muita coisa inútil – e encontrar suporte em ampla literatura lotada de sofismas. Aqui no Brasil essa gama literária de inverdades pseudocientíficas nos é servida, por exemplo, pela
Sociedade Criacionista Brasileira (SCB) e pela
Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados (sede das Testemunhas de Jeová), que lançou no ano passado a brochura
Origem da Vida, destinada a convencer ateus, agnósticos e evolucionistas em geral do Criacionismo, embora as Testemunhas de Jeová (pasmem!) afirmem que
não são criacionistas.
Em detrimento da Evolução, os criacionistas propõem, em diferentes contos de diferentes níveis de inverdade, que o ser humano é o ápice de um processo de criações perfeitas, o único ser “à imagem de deus”. Para tais crédulos fanáticos, o ser humano não pode ser o resultado de um processo evolutivo de adaptações ao meio, porque é demasiado superior a toda forma de matéria animada ou inanimada a tal ponto que só pode ser a criação de um ser de inteligência imensurável, onisciente e onipotente, perfeito em toda a sua essência.
“A única maneira com a qual podemos determinar a verdadeira idade da terra é com Deus nos dizendo qual é. E já que Ele nos disse, muito claramente, nas Escrituras Sagradas que ela tem alguns milhares de anos de idade, e não mais, isso deve colocar um ponto final em todas as perguntas básicas sobre a cronologia terrestre.”– Henry Morris, Presidente do Instituto de Pesquisa da Criação, 1974
Mas não pense que faltam os argumentos pseudocientíficos cheios de falsa complexidade. Os criacionistas também se utilizam de uma matemática espúria, uma química infantil e uma física altamente fantasiosa. Enchem suas bocas para falar que “as chances do ser humano vir a existir num Universo sem deus é de uma em sei lá quantos bilhões/trilhões”. Fica evidente que eles consideram que o ser humano é algo de existência indispensável ao determinar desesperadamente que o Universo deve existir sob as mesmas finas condições capazes de gerar tudo como é, inclusive o ser humano, e não como poderia ser, extrapolando um número de possibilidades imaginável. E também o fica o fato de que reduzem uma suposta baixa probabilidade à conclusão da impossibilidade.
Além dos números estrambóticos, os criacionistas também apontam para lacunas no registro fóssil e a busca que só existe nas cabeças deles por um mágico
elo perdido, fazem usos fantásticos da segunda lei da Termodinâmica – muitas vezes sem nem saber o que é Termodinâmica –, insistem que coisas complexas exigem necessariamente um criador para vir a existir e esbravejam aos quatro ventos que há uma complexidade irredutível na vida terrestre que contradiz a Evolução. Ora, 1) “elos perdidos” existem aos montes; 2) o registro fóssil não é nem de longe o único elemento-suporte da Evolução: é na Genética que este fato se assenta com mais segurança; 3) a segunda lei da Termodinâmica só se aplica a sistemas fechados, o que não é o caso da Terra; 4) esta tese de que complexidade só pode ser originada em uma mente inteligente é argumento falido que não se baseia em nada que não o desejo de encaixar deus em toda brecha em que for possível; e 5)
complexidade irredutível, nos moldes em que aqui se fala, é praticamente uma fantasia de Michael Behe,
academicamente refutada.
“A ‘Ciência da Criação’ não entrou no currículo por uma razão tão simples e tão básica que nós frequentemente esquecemos de mencioná-la: porque ela é falsa, e porque bons professores entendem exatamente por quê ela é falsa. O que poderia ser mais destrutivo nessa mais frágil porém mais preciosa comodidade em toda nossa herança intelectual – bom ensino – do que uma lei forçando professores honoráveis a trair as suas crenças ao garantir tratamento igual a uma doutrina que não é apenas sabidamente falsa, mas calculada para minar qualquer compreensão geral da ciência como um empreendimento?” – Stephen Jay Gould, The Skeptical Inquirer
Ao falar em perfeição e maravilha, essas pessoas imputam à natureza e ao Universo o dever de girar em torno de ideais humanos. O ser humano não é nem de longe o cúmulo de algum processo determinista que busque a perfeição ou qualquer modelo humano em torno do qual as coisas devam se realizar e vir a ser. Se o ser humano é criação de um ser divino, dentro desta criação ele é, nas palavras de Henry Louis Mencken, “o reductio ad absurdum”, portando inúmeros problemas biológicos inconvenientes a sua sobrevivência. E não é de maneira alguma mais digno do qualquer ser vivo neste mundo.
O que o Criacionismo tenta nos impor, por trás de suas falácias pseudocientíficas, é a ideia de que é muito mais plausível supor que o ser humano seja uma maravilha de um velho mágico que vive numa dimensão mística, transcendendo o espaço-tempo, do que objeto de um processo evolutivo que não tem qualquer afinidade com o progresso. Isto é resultado do orgulho do ser humano, que não consegue se imaginar fora das asas de um ser místico que o ama e que o projetou para ser perfeito e feliz, como se imagina ser totalmente. É um embuste, um conto equiparável ao famoso Alice in Wonderland, de Lewis Caroll. E tal qual o “vamos mudar de assunto”, com o qual a lebre tergiversava diante das dúvidas de nossa loura personagem, os criacionistas fogem dos argumentos racionais com o subterfúgio do “foi deus que fez e pronto!”. O Criacionismo não só não tem nada de científico como não passa de uma tentativa de derrubar as verdades científicas para eleger em lugar delas uma tese tola que acalente as pretensões egocêntricas humanas. Equipará-lo ao Evolucionismo em um debate é dar luz a uma pseudo-equivalência e basear nosso conhecimento num conto infantil que pretende colocar as crianças para dormir sob o sossego da ilusão de serem perfeitas.
* Criacionistas da Terra Jovem são aqueles que defendem a versão literalista dos textos religiosos monoteístas que asseguram que a Terra não tem mais que alguns milhares de anos, e que tudo que existe foi criado em seis dias por uma entidade divina pessoal e inteligente; Criacionistas da Terra Antiga são aqueles que, embora também creiam na criação do mesmo modo que os anteriores, fogem um pouco do literalismo religioso e aceitam as datações radiométricas que estimam a idade da Terra e do Universo em 4,54 bilhões de anos e 13,7 bilhões de anos, respectivamente; e Criacionistas do Design Inteligente são aqueles que defendem que, embora a literatura religiosa em geral expresse não mais do que mitos sobre a criação, esta de fato se deu através de um projetista inteligente, sobre cuja identidade, objetivos ou métodos não é possível inferir. Vale destacar que o Criacionismo do Design Inteligente (CDI) é uma pseudociência criacionista abrandada que assim se faz para tentar infiltrar-se no ensino escolar.
Post scriptum: a nomenclatura correta é Teoria da evolução, sem ismos.
Por: Bruno Cardoso
Fonte: Evolucionismo.org
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